quarta-feira, maio 26

Words to leave unspoken

Mais que o teu olhar,
Dói-me a cegueira d'alma
Este querer e não-querer
Do teu silêncio lacónico.


Tocaram-se nas mãos como se aquela fosse a primeira vez que as suas mãos se tocaram. Olharam-se nos olhos e, de respiração presa, nervoso miudinho, falaram. E um silêncio maior do que eles engoliu-lhes as vozes. E falaram. Ela disse-lhe sem palavras o amor que lhe fluía por dentro, a vontade de responder a todas as perguntas e as dúvidas que trazia entre os dedos. O medo de resolver todas as equações que o seu coração mantinha. Disse-lhe que não conseguia ler-lhe os olhos e que apesar de alguém ter afirmado que aqueles vidros de mel eram o espelho da alma, não percebia o torbilhão que a engolia sempre que o lia. Escreveu-lhe nos lábios o desejo de que todos os caminhos percorridos, todos os gestos sejam unos. E sabia. Tinha a certeza que lhe pertencia, que cabia na palma da mão dele. E que a vida os tinha juntado para que traduzissem as histórias do mundo, em silêncios por alguma razão. E mesmo com um 'nós' conjugado no pretérito imperfeito, mesmo com a falta de um final feliz sorriu-lhe, disse-lhe em palavras mudas que o amava e que aquela sim, era uma paixão das duras que tornava em chamas, o iceberg que trazia no peito.

quarta-feira, maio 19

O avesso do inverso

Os calafrios percorrem todo o meu corpo quando ouço o toque das tuas mãos sobre o gatilho. É uma lembrança tão gélida, capaz de trazer o poder de escuta da tua pele sobre a arma. São as lembranças apodrecidas pelo tempo que me fazem temer-te. É a prova (não) viva de que o passado influencia e molda a nossa vida. De uma cor enegrecida pelos nossos defeitos, a arma dançava nos teus dedos num ritmo só teu. Depois de tantos segredos revelados pensava que te conhecia os movimentos mas bastava visualizar a forma de entrelaçar os dedos, para me aperceber do quanto estava enganada. O toque das tuas mãos carregadas de calos e unhas mastigadas sobre a minha possível causa de morte brincava com uma dávida de deuses macabros. O teu sorriso malicioso desenhava-se serenamente, bloqueando-me o olhar. Passava a mão sobre o cabelo e tapava o rosto para não teres acesso aos meus sentimentos. A água salgada dos teus olhos escorria-te por entre o nariz. Quente, amarga como veneno. E, de repente, a dança frenética dos teus dedos parou:
- Porque é que não me queres?
- Não te escolhi.
- Simplesmente assim? Qual é o motivo?
- Não se pode escolher quem se ama. - As palavras infiltraram-se lentamente no ambiente e espalharam-se pelo meu corpo. Por mais absurdo ou soberbo que pareça, ainda consegui ouvi-las uma segunda vez. O meu olhar vazio ainda pediu compaixão. Só me lembro de ver a arma apontada para o meu peito e ouvir o teu dedo forte no gatilho, pressionando-o. Quando coloquei a mão direita sobre a ferida mortal, adormeci.

Por David Pimenta, (muito) adaptado.

sábado, maio 8

A ausência (do mistério)

Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
E o que nos ficou não chega
Para afastar o frio de quatro paredes.

Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
Gastámos as mãos à força de as apertarmos,
Gastámos o relógio e as pedras das esquinas em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro...
Era como se todas as coisas fossem minhas:
Quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.

Acreditava, porque ao teu lado
Todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
Era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
Era no tempo em que os meus olhos
Eram realmente peixes verdes.

Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco mas é verdade,
Uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
Já não se passa absolutamente nada.

E no entanto, antes das palavras gastas,
Tenho a certeza
De que todas as coisas estremeciam
Só de murmurar o teu nome
No silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de tinão há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.

Adeus, Eugénio de Andrade

quinta-feira, maio 6

Desabafo: Monstro

Habita um monstro em mim. Um amor-ódio em chamas. Uma verdade escondida no meu peito. Nasceu um hábito tão forte, uma realidade tão fugosa e visceral que nenhum tornado nem tempestade a derrubam. Um veneno sufocante que todos os poros da minha pele sugam incessantemente. Um tumor maligno. Uma doença incurável. É uma dúvida constante, um medo pertubador, um sufoco, uma falta de ar tal que nenhuma águia ultrapassa os limites das alturas sempre que os meus olhos te tocam. É uma falta de humanidade. Um vício. Um dilema. Mas ainda não te amo, meu monstro do prazer.